domingo, 24 de agosto de 2008

Dinheiro Sujo

As notas de real acumulam microorganismos prejudiciais à saúde. Mãos de cobradores de ônibus e caixas de supermercados, as maiores vítimas, são quase tão contaminadas quanto feridas infectadas.

O cobrador de ônibus Walmir dos Santos, 44 anos, levou um susto quando o médico deu-lhe o diagnóstico: o pequeno tumor que havia crescido no seu olho esquerdo tinha sido causado por bactérias muito comuns nas notas de real que ele manuseia pelo menos oito horas por dia. “Fiquei estarrecido quando ouvi isso”, conta. Com a caixa de supermercado Elizângela Mota, não foi diferente. Logo na primeira semana de trabalho ela foi obrigada a procurar um oftalmologista, devido a uma insistente irritação nos olhos. “Não tinha a menor noção do perigo de levar as mãos aos olhos depois de pegar o dinheiro que passa pelo meu caixa. Mas hoje estou precavida”, garante.

Walmir e Elizângela fazem parte dos dois grupos de profissionais mais suscetíveis às doenças propagadas pelas cédulas de real. Em média, as mãos de cobradores de ônibus e de caixas de supermercados apresentam 98,69 bactérias e fungos por centímetro quadrado. É quase a mesma taxa de micróbios existentes em uma ferida infectada, de 100 por centímetro quadrado.

Infecções

Não é de hoje que o microbiologista avalia a qualidade do dinheiro brasileiro. Em 2001, a pedido do Banco Central, ele analisou 110 notas de R$ 10 e de R$1. Na época, o sistema utilizado para medir o nível de sujeira das cédulas não foi dos mais sofisticados. Ele usou um cotonete umedecido, que foi esfregado nas cédulas. O resultado das análises dos resíduos foi taxativo: as cédulas de R$ 1, as que mais transitam pelas mãos da população, especialmente a que vive em regiões com sérias deficiências sanitárias, eram um grande depositário de microorganismos patogênicos que, dependendo do estado de saúde dos indivíduos, podem deflagrar problemas gravíssimos, como a septicemia, uma infeção generalizada.

Pela pesquisa de Tórtora, em cada centímetro quadrado das notas de R$ 1 havia 30,4 bactérias e fungos. Nas cédulas de R$ 10, a relação era de 8,24 micróbios por centímetro quadrado, praticamente o mesmo nível de sujeira encontrada em uma nota de US$1 (de 8,33). Mais recentemente, o professor fez um novo estudo, desta vez concentrado nas cédulas de R$ 1. E usou uma técnica mais moderna. Mergulhou as notas em um frasco com soro fisiológico estéril, que, em seguida, foi agitado por 10 minutos. Na média, as notas apontaram a existência de 247,25 micróbios por centímetro quadrado, quase dez vezes mais o que havia mostrado a primeira pesquisa. A conclusão foi uma só: o dinheiro — principalmente as cédulas de R$ 1 — é mais sujo do que se imagina.

Coliforme fecal

O estudo do microbiologista indicou a existência de uma penca de micróbios nas cédulas analisadas. Entre eles, a maior presença (42%) foi de estafilococos, um tipo de bactéria que causa furúnculos, terçóis, inflamação no ouvido (otite) e faringite, além de intoxicação alimentar. “Para pegar alguma dessas doenças, basta passar a mão contaminada sobre a pele ou pegar um alimento e ingeri-lo sem lavar”, alerta Tórtora. Já os fungos encontrados no dinheiro são causadores de alergias respiratórias e de contato. Mas não é só. As notas de real também apresentam elevada quantidade de coliformes fecais, resultado da falta de higiene das pessoas depois de usarem o banheiro.

Na avaliação do professor, mesmo que imundo, o dinheiro não seria um perigo tão grande à saúde pública se as pessoas realmente se preocupassem em lavar as mãos depois de manuseá-lo. No entanto, 20 ou 30 segundos de lavagem não são suficientes para reduzir a quantidade de micróbios nas mãos a níveis despreocupantes, informa. O ideal seria esfregá-las por três minutos com um álcool gel usado, constantemente, pelo pessoal que trabalha na área de saúde.

Notas de R$ 1 mais contaminadas

A decisão do Banco Central de substituir as notas de R$ 1 por moedas do mesmo valor não tem como motivação apenas a redução de custos. Também é uma questão de saúde. Como se desgastam demais e os hábitos de higiene da população não são os mais desejáveis, as notas acabam se transformando em depósitos de bactérias e focos de transmissão de doenças. As moedas, por sua vez, minimizam esses riscos, pois os metais têm atividade antimicrobiana.

Dinheiro sujo não é exclusividade do Brasil. Mesmo em países ricos, como os Estados Unidos e a Áustria, onde o frio é rigoroso, as cédulas apresentam grande quantidade de micróbios. É que, no inverno, as pessoas tomam menos banho e lavam menos as mãos, estimulando a disseminação de bactérias e fungos. O auditor Jorge Marques, 41, que o diga. Em sua primeira viagem a Nova York, ele costumava tirar as luvas com o dente, sem se preocupar que elas haviam tocado várias cédulas de dólares, muitas delas, bem sujas. O resultado foi uma séria infecção na boca. Ele teve de operar os lábios para retirar a sujeira ali acumulada.

Perigo

As cédulas de real começam a se tornar um perigo para a saúde à medida que vão perdendo o verniz que as recobrem. Sem essa proteção, passam a reter muitas coisas, entre elas, o suor, um campo fértil para o desenvolvimento de germes. Nas notas de R$ 1, esse processo de deterioração é mais rápido. Enquanto, em média, uma cédula de maior valor dura até três anos, o prazo de validade das de R$ 1 é de 12 meses.

Já encontraram até urina de rato em muitas delas, trazendo o risco de contaminação de leptospirose.

Marcadores

O papel moeda existe desde 1618, quando foi posto em circulação na China. Na avaliação do professor João Carlos Tórtora, do Departamento de Microbiologia da Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, as cédulas constituem-se em excelentes marcadores, inclusive o de higiene, podendo revelar diversos aspectos socioculturais de um povo. Essas características ficam claras, principalmente, por meio das notas de menor valor, devido à rapidez com que circulam.

Um comentário:

Bel disse...

dinheiro pra mim é sinonimo de sujeira, se for nota de 1 real entao, vixi!